terça-feira, 22 de abril de 2014

CERÂMICA PERES, UMA FAMÍLIA EM DEFESA DA ARTE



“Levanta-te e desce à casa do oleiro e lá te farei ouvir sobre minhas palavras. Como o vaso que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele o vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. (Jeremias 18, 1.4)”.
Há 35 anos esta é a rotina de Flávio Peres, artesão sãojoanense que luta para que sua arte familiar, passada de geração em geração perdure.
Como foi o seu primeiro contato com a arte da cerâmica em argila?
Tudo começou com o meu pai, que é da cidade de Recreio, e aprendeu o ofício de oleiro aos 13 anos de idade. Depois ele acabou se mudando para Niterói, onde trabalhou por dois anos, de 1948 a 1950, tendo inclusive assistido à final do mundial daquele ano, entre Brasil e Uruguai. No dia cinco de março de 1951 ele iniciou a arte da cerâmica em São João Nepomuceno. Ele acabou perdendo tudo em uma enchente em 1960. Com cinco filhos pequenos e sem ajuda de ninguém, apenas de uma de suas irmãs, ele retomou o trabalho, ensinando a técnica de cerâmica a três de suas crianças: Luís, Fábio e eu. O Luís se formou em Direito, e atualmente trabalha em um escritório de contabilidade; o Fábio também deixou de se dedicar à cerâmica. Portanto hoje eu trabalho sozinho.
Há quanto tempo você se dedica a esta arte?
Eu comecei a trabalhar como oleiro em 1977, após servir o exército. Sempre trabalhando na mesma oficina, que pertence à minha família desde 1955.
Como é o seu acesso à matéria prima da cerâmica, a argila?
São João não é uma cidade que tenha uma boa argila. Por aqui nós só encontramos o barro com mistura. O único lugar que possui este material puro é um terreno que pertencia ao falecido Geraldo Pace. Obtive informações de que o povoado da Braúna também possui um barro de alta          qualidade para a produção da cerâmica. Eu trabalho com o barro da cidade de Recreio, para misturar, já que ele tem mais liga – o que facilita também o trabalho, quanto à aprendizagem.
Como você percebe se a argila é de qualidade ou não?
A aprovação final da argila é o fogo. Na hora em que eu queimo a peça é que dá para perceber. Se ela sair boa trata-se de um barro de qualidade. Se não, tem que refazer o trabalho todo novamente. Por isso eu não arrisco trabalhar com uma argila que eu não conheço. Em alguns casos, só de olhar, ou pegar na argila, dá para perceber se ela é boa ou não. A argila tem que ter uma mistura, porque se uma argila for muito boa, ou forte, na hora da queima ela pode estourar a peça. Então, o ideal é combinar uma argila mais forte com uma mais fraca, assim pode-se conseguir um material de alta qualidade.
Você tem conhecimento sobre algum outro artista local que realiza este tipo de trabalho?
Não. Atualmente eu sou o único sãojoanense que realiza este tipo de trabalho com cerâmica.
Existe algum outro espaço em que você divulgue o seu trabalho, além da oficina?
Não. Minha arte é produzida, divulgada e comercializada aqui mesmo, na oficina. Eu, particularmente, prefiro vender aqui mesmo, já que assim o cliente terá uma maior variedade de peças com um preço melhor. Além do mais, essa cerâmica é muito conhecida em toda São João e região. Eu recebo, inclusive, fregueses estrangeiros. Tem um caso especial de um senhor sãojoanense que há 40 anos residia fora da cidade. Quando ele chegou ao município a primeira pergunta que ele fez foi se a cerâmica ainda existia. Ao saber que ainda funcionava, no mesmo lugar, ficou muito alegre por esta arte não ter acabado. Até a TV Alterosa, de Juiz de Fora, veio aqui fazer uma matéria, no ano passado.

Você já disse que é o único da família que continuou com a cerâmica. Você tem o desejo de passar esta arte para as futuras gerações?


Sim, a maior vontade que eu tenho é passar esta arte para frente. O grande sonho que eu tenho é criar uma escola onde eu possa ensinar a comunidade sãojoanense a trabalhar com a cerâmica para que ela não acabe. A idade está chegando, já estou com 55 anos, se eu parar o trabalho hoje, a arte ceramista de São João Nepomuceno acaba.
Você percebe algum interesse da comunidade sãojoanense em aprender a arte da cerâmica?
Todas as pessoas que vem à minha oficina me perguntam se eu não quero dar um curso, ensinar a minha arte. O interesse principal vem das mulheres. Muitas me falaram que iriam arrumar um grupo de pessoas para montar uma turma para o curso. As crianças também demonstram muita vontade de aprender a técnica. O problema é que aqui eu não tenho o espaço nem o equipamento necessário para poder ensinar a cerâmica.
ALGUMAS PEÇAS PRODUZIDAS PELA CERÂMICA PERES (FOTO: NILSON MAGNO BAPTISTA)

Qual é o grau de dificuldade de aprendizagem da técnica?
Não é difícil aprender, basta a pessoa ter boa vontade e trabalhar bastante. Eu, por exemplo, dos meus três irmãos, fui o que tive maior dificuldade. Meu pai chegou a pensar que eu não conseguiria aprender, mas com boa vontade e trabalho duro eu estou aqui até hoje, tirando o meu sustento da cerâmica, assim como meu pai, que criou cinco filhos trabalhando como artesão.
De que tipo de apoio você precisaria, da Prefeitura, por exemplo, para poder criar o curso de cerâmica em São João?
O ideal era que a Prefeitura me contratasse para ensinar. Com um espaço próprio. Um galpão, por exemplo. Um caminhão para pegar o barro na Braúna também seria de grande utilidade e, acredito, não custaria tanto dinheiro, ou trabalho, à administração do município.
Tem algum recado que você quer deixar para os leitores do SJN?
Eu gostaria de ressaltar que o trabalho de cerâmica pode servir de fonte de renda a muitas pessoas. Muita gente da cidade, e de fora também, vem até aqui para comprar as peças para trabalhar com pintura. O resultado final é muito bonito e rentável. Outro ponto importante é que este serviço é muito utilizado para o tratamento de pessoas com depressão. Outro dia veio aqui um senhor que reside em São Paulo, me convidando para ir até lá dar aula para os pacientes com depressão. Mas eu não tenho interesse nenhum em sair. Meu interesse maior é ficar na minha cidade, o lugar que eu gosto, onde vivi todos os momentos da minha vida.
(Reprodução da entrevista intitulada “Uma conversa com Flávio Peres”, publicada pelo Jornal SJN em sua edição de nº 19, em setembro de 2012).





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