UMA ESTÁTUA PARA DR. CARLOS ALVES
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DR.CARLOS FERREIRA ALVES (CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA) |
Dois minutos com Nilson Baptista (27.02.2015)
Muito bom dia José Roberto, Roberta e ouvintes da Rádio
Cultura
Nos dias 3, 4, 5 e 6 deste mês
narramos aqui nesta emissora a belíssima história de vida do grande médico e
político Dr. Carlos Ferreira Alves que, no dizer de um de seus biógrafos, foi,
no período agudo de uma calamidade que assolou nossa terra, além de prefeito,
médico, juiz, advogado, trabalhador braçal, padioleiro, cozinheiro, mas,
sobretudo, o amigo, irmão e apóstolo.
Na verdade foram duas tragédias: a
epidemia de varíola, ou bexiga (como era chamada na época) que aconteceu em
1890 e ceifou muitas vidas de são-joanenses. Depois veio, em 1895, a epidemia
de febre amarela, que acabou abatendo o grande herói da nossa história,
falecido no dia 06 de fevereiro de 1896, aos 42 anos de idade, quando em
tratamento em Barbacena por ter contraído a febre fatal que ele combateu.
Hoje estamos de volta, falando
sobre o Dr. Carlos Alves, desta vez para iniciar uma campanha pela construção
de uma estátua, em tamanho natural, deste grande homem, que deu sua vida pelo
povo são-joanense, a ser erigida na Praça Central da cidade, que tem o seu
nome.
Nunca ninguém nesta terra se
igualou em coragem, determinação e heroísmo ao Dr. Carlos Ferreira Alves. Por
isso decidimos lançar esta campanha, contando também com a solidariedade de
toda a nossa população. Aguardamos a manifestação daqueles que concordam com
essa campanha que hoje iniciamos.
Um bom dia a todos e até amanhã, se Deus quiser.
(ESTE FOI O TEXTO LIDO POR MIM HOJE NO PROGRAMA DE JOSÉ ROBERTO LUÉRCIO RETONDAR, DA RÁDIO CULTURA FM, ONDE TENHO UMA PARTICIPAÇÃO DIÁRIA INTITULADA "DOIS MINUTOS COM NILSON BAPTISTA" E LANCEI A CAMPANHA PELA CONSTRUÇÃO DA ESTÁTUA DO DR. CARLOS ALVES)
(ESTE FOI O TEXTO LIDO POR MIM HOJE NO PROGRAMA DE JOSÉ ROBERTO LUÉRCIO RETONDAR, DA RÁDIO CULTURA FM, ONDE TENHO UMA PARTICIPAÇÃO DIÁRIA INTITULADA "DOIS MINUTOS COM NILSON BAPTISTA" E LANCEI A CAMPANHA PELA CONSTRUÇÃO DA ESTÁTUA DO DR. CARLOS ALVES)
BIOGRAFIA DO DR. CARLOS FERREIRA ALVES
Falaremos sobre um cidadão que consideramos o
maior herói da história de São João Nepomuceno, o Dr. Carlos Ferreira Alves.
Dr. Carlos Alves formou-se pela
Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro com o grau máximo, em 1875.
Chegou a São João Nepomuceno em 1876, com 23 anos de idade, convidado por seu
antigo colega de escola, Dr. Joaquim Antônio Dutra, filho do Coronel José
Dutra.
O jovem médico logo chamou a
atenção de todos pela sua visível capacidade administrativa e espírito de
liderança tendo sido eleito
Vice-Presidente da 1ª Câmara Municipal, em 1883 e, em setembro daquele mesmo
ano, foi escolhido, por unanimidade por seus companheiros vereadores, para
ocupar o mais alto cargo do município: Agente Executivo, que corresponde, nos
dias de hoje, a Prefeito Municipal. Nessa fase de sua vida, assim como em
outros momentos, teve o apoio incondicional de um dileto amigo, o Delegado Neca
Basílio, que acompanharia sua trajetória de vida até o momento de sua partida.
São palavras do amigo de infância
Dr. Joaquim Antônio Dutra, referindo-se ao Dr. Carlos Alves, em discurso no
senado mineiro, por ocasião de sua morte: “ Era São João , naquela época, uma
freguesia de Rio Novo, sem vida social, sem comércio; era quase um cadáver, que
só a atividade, a energia, a tenacidade sem desfalecimento do Dr. Carlos Alves
poderia galvanizar, chamando-o à vida. E de fato o conseguiu”.
Entre as obras realizadas pelo Dr.
Carlos Alves como Agente executivo estão: o antigo Fórum Municipal, onde hoje
funciona a Escola Municipal dr. Augusto Glória, a Praça 13 de maio (praça da
Matriz), construção de pontes e estradas, Cemitério Municipal, o jardim
municipal, onde atualmente é a praça central que leva seu nome; o quartel da
Polícia Militar e a Cadeia Pública; o mercado municipal, onde hoje é o prédio
da Energisa.
Organizou três exposições
para a agricultura e a pecuária, sendo a primeira em 1884, a segunda em 1885 e
a terceira em 1886, que serviram de incentivo para que o grande administrador
criasse a Colônia que hoje tem o seu nome: Núcleo Colonial Dr. Carlos Alves –
onde ele implantou numerosa colônia italiana.
Determinado, arrojado,
ousado, ativo, o Dr. Carlos Alves planejou duas tarefas gigantescas para a
época, sendo uma delas a construção da estrada de ferro para o distrito de
Santa Bárbara (que hoje tem o seu nome). A segunda obra de vulto idealizada
pelo Dr. Carlos Alves foi a fábrica de tecidos Mineiros, que começou a
funcionar com 25 teares.
Muito ainda temos a
relatar sobre a vida do grande homem que foi o Dr. Carlos Alves.
Comentando sobre a belíssima história de vida
do Dr. Carlos Alves, nos referimos a ele como o verdadeiro herói da história de
São João Nepomuceno, relatamos uma parte do que foi a sua vida mostramos o seu
lado de homem público, sua atuação bem sucedida na política, como vereador,
agente executivo (o prefeito da época).
Ressaltamos ainda que dr. Carlos Alves também foi Deputado Provincial de
Minas e, mais tarde, ocupou o cargo de senador no Congresso Constituinte do
Estado.
Mas o heroísmo do
Dr.Carlos Alves veio a se manifestar mesmo foi no período da calamidade que
assolou nossa terra, e em que, além de prefeito e grande médico, teve de
assumir também os papéis de juiz, advogado, trabalhador braçal, padioleiro,
cozinheiro, enfermeiro, coveiro, mas sobretudo de amigo, de irmão e de apóstolo
do bem.
Em 1890 uma epidemia de
varíola se alastrou sobre nossa terra: uma doença, também conhecida como
“bexiga”, que cobria o corpo da vítima de pústulas sangrantes, inflamadas,
cujas consequentes repercussões no organismo levavam à morte. Ao lado da esposa
o Dr.Carlos Alves levava consolo aos órfãos, sustentando o ânimo dos
desesperados porque o pavor dominara a população e muitas pessoas deixavam seus
doentes, seus vizinhos ou familiares, fugindo horrorizadas.
Diante da extensão do
trabalho e da luta, Dr.Carlos Alves resolveu chamar seu irmão que vivia no Rio
de Janeiro, o Dr.Augusto Glória Ferreira Alves, e o mesmo veio ajudá-lo. Mas o
quadro era dantesco, difícil, desorientador, e em pouco tempo o Dr.Augusto
Glória disse ao irmão que ia embora, e que ele também deveria ir, antes de
contrair e doença e ter o mesmo fim que os outros. Clarividente, consciente,
abnegado, Dr. Carlos Alves respondeu para o irmão que o lugar dele era aqui e
que de modo algum abandonaria o posto, iria até o fim. Dr. Glória, emocionado,
lhe disse, então: “Se você quer suicidar-se... fique”. E ele ficou. Enquanto
isso morriam às dezenas as vítimas da bexiga, ou varíola, ou peste preta. E o Dr.
Alves não permitia que as vítimas fossem sepultadas no cemitério municipal.
Eram sepultadas fora dele, nas proximidades, em covas com o dobro da
profundidade, para evitar novos surtos da doença, e tais sepulturas não
deveriam, nem poderiam ser abertas de novo. As únicas pessoas que estavam ao
lado do Dr. Alves nesse trabalho eram o coveiro Martelo e o delegado Neca
Basílio, que não escondiam o pavor que os dominava, e só era contido pela
energia, determinação e autoridade do Dr.Carlos Alves.
E assim chegamos ao final
da segunda parte da história da vida desse nosso grande herói: Dr.Carlos
Ferreira Alves.
Em 1895, quando se pensava
que a epidemia de varíola havia sido debelada e as pessoas estavam livres de
doenças, grassou entre os são-joanenses outra epidemia, dessa vez de febre
amarela. E então o inabalável Dr. Carlos Alves dirige o combate contra ela, com
uma força descomunal, que só podia vir de sua determinação e fé no poder de
Deus.
A cidade descia do Largo da Matriz
para o vale e crescia em direção a Furtado de Campos, constituindo um problema
para o Dr.Carlos Alves, que precisava de um novo cemitério. O local necessário
ficava nas terras do Barão, que então exercia uma grande influência no
município. Ele não queria correr o rico de pegar a febre amarela, e nem
pretendia um cemitério em seus domínios. Então houve a primeira revolução na
cidade, em prol do início imediato da construção do cemitério. Urgiam medidas
drásticas!Dr. Carlos Alves tomou a frente dos trabalhadores da prefeitura,
seguindo com carroças que transportavam material e ferramentas, descendo para a
cidade baixa em direção às terras do Barão, acompanhado pelas orações de
mulheres piedosas, que rogavam o êxito da missão. Os homens do Barão
desapareceram e este viu a realidade de uma nova ordem pública implantada pelo
Dr. Carlos Alves. Assim foi construído o nosso atual cemitério municipal.
Quando a febre amarela
estava na fase mais aguda, Dr. Alves foi informado de que a esposa de um
soldado da polícia estava nos últimos momentos de vida e ninguém queria
aproximar-se dela. Dr. Alves se fez acompanhar do Delegado Neca Basílio e
rapidamente chegaram à casa da doente, que não conseguiu esperar os recursos do
abnegado médico.
Havia de se providenciar o
sepultamento daquela senhora, cujo esposo, sendo soldado, estava de guarda e
não podia abandonar o posto. Dr.Carlos Alves mandou procurar o coveiro Martelo,
que estava desaparecido, para abrir a cova no cemitério.
Junto ao delegado tudo
foi providenciado e apenas três homens transportaram o caixão, mas no cemitério
não havia sido aberta a cova, e a solução foi o Dr. Alves pegar o enxadão e os
dois homens pegarem as pás. Então, conseguiram sepultar a mulher.
Depois de tamanha luta
empreendida pelo Dr.Carlos Alves no combate a duas graves epidemias, a falta de
repouso e a multiplicação de tarefas estavam levando-o a uma astenia perigosa e
os amigos sugeriram o reforço de outros médicos para que o auxiliassem. Em
pouco tempo dois jovens médicos chegavam à cidade. Eram eles: Dr. Carlos Del Vechio
e Dr. José Gomide, que, de imediato, começaram a trabalhar com Dr. Alves.
Imaginemos como era ser
médico naqueles tempos distantes! Era uma tremenda prova para a sensibilidade
daqueles que, como apóstolos da Medicina, colocavam o coração acima da cabeça.
Vencer obstáculos e manter serenidade e clareza de ideias exigia paciência de
santo e persistência acima de todos os limites.
Numa manhã em que se esgotaram
todos os recursos, também a esperança abandonou os colegas do Dr. Carlos Alves,
que sem se despedir, partiram. O Dr. José Gomide foi para as bandas de Santa
Bárbara do Rio Novo, já atacado pela febre maligna e ali mesmo veio a falecer.
O mesmo aconteceu com o Dr. Del Vechio que, tomando a linha férrea, partiu
também, a pé, para Rochedo, onde, segundo informações, faleceu vitimado pela
febre fatal. Mas o Dr. Carlos Alves permaneceu no seu posto, lutando até
tombar, vencido pela terrível febre, vencedor diante de Deus e de si mesmo. Ao
constatar o domínio da doença sobre seu organismo, medicou-se, melhorando o
suficiente para seguir para Barbacena, dizendo a seu amigo, delegado Neca
Basílio, que o levara até a estação, que ia continuar o tratamento para poder
voltar ao campo de luta. Deixaria a família, que há algum tempo se mudara do
Caxangá para a Rua do Totó (atual Capitão Braz). Na estação, ainda tinha
intenção de voltar, porque aceitou o convite do amigo Neca Basílio para ser seu
padrinho de casamento.
Em Barbacena, o estado de saúde do
Dr. Alves se agravou. A febre voltou e, só, distante da família, ele faleceu.
Era o dia 06 de fevereiro de 1896. São João Nepomuceno perdia, assim, o médico,
o amigo, o irmão, o enfermeiro, o apóstolo, que partiu para ser julgado por
Deus, que certamente lhe abriu os braços misericordiosos, envolvendo-o no Seu
Santo amor. Contava o Dr. Carlos Alves apenas 42 anos.
São palavras do ilustre colega do
Dr.Carlos Alves no Senado Estadual, o historiador mineiro Xavier da Veiga: “...
ele deixou para epílogo da sua vida tão cheia de atos meritórios e brilhantes,
a página sublime que registra o consciente sacrifício de sua existência,
perseverando na luta pela salvação de seus concidadãos, flagelados por epidemia
devastadora, luta em que ele se multiplicava, dia e noite, sendo a um tempo
médico, enfermeiro, diretor de serviço funerário e consolador de órfãos”.
(Este texto foi baseado em trechos
de trabalhos escritos por pesquisadores como Dr.Paulo Roberto de Gouvêa Medina,
depoimentos de José Basílio e Oraida Muniz, além de pesquisas de José Carlos
Henriques Barroso e Adilson Cunha Onore)
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