BIOGRAFIAS

PESSOAS EM DESTAQUE (NO PASSADO E NO PRESENTE) EM SÃO JOÃO NEPOMUCENO 
- Dr. Carlos Ferreira Alves






 Falaremos sobre um cidadão que consideramos o maior herói da história de São João Nepomuceno, o Dr. Carlos Ferreira Alves.


Dr. Carlos Alves formou-se pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro com o grau máximo, em 1875. Chegou a São João Nepomuceno em 1876, com 23 anos de idade, convidado por seu antigo colega de escola, Dr. Joaquim Antônio Dutra, filho do Coronel José Dutra.

O jovem médico logo chamou a atenção de todos pela sua visível capacidade administrativa e espírito de liderança  tendo sido eleito Vice-Presidente da 1ª Câmara Municipal, em 1883 e, em setembro daquele mesmo ano, foi escolhido, por unanimidade por seus companheiros vereadores, para ocupar o mais alto cargo do município: Agente Executivo, que corresponde, nos dias de hoje, a Prefeito Municipal. Nessa fase de sua vida, assim como em outros momentos, teve o apoio incondicional de um dileto amigo, o Delegado Neca Basílio, que acompanharia sua trajetória de vida até o momento de sua partida.

São palavras do amigo de infância Dr. Joaquim Antônio Dutra, referindo-se ao Dr. Carlos Alves, em discurso no senado mineiro, por ocasião de sua morte: “ Era São João , naquela época, uma freguesia de Rio Novo, sem vida social, sem comércio; era quase um cadáver, que só a atividade, a energia, a tenacidade sem desfalecimento do Dr. Carlos Alves poderia galvanizar, chamando-o à vida. E de fato o conseguiu”.

Entre as obras realizadas pelo Dr. Carlos Alves como Agente executivo estão: o antigo Fórum Municipal, onde hoje funciona a Escola Municipal dr. Augusto Glória, a Praça 13 de maio (praça da Matriz), construção de pontes e estradas, Cemitério Municipal, o jardim municipal, onde atualmente é a praça central que leva seu nome; o quartel da Polícia Militar e a Cadeia Pública; o mercado municipal, onde hoje é o prédio da Energisa.

Organizou três exposições para a agricultura e a pecuária, sendo a primeira em 1884, a segunda em 1885 e a terceira em 1886, que serviram de incentivo para que o grande administrador criasse a Colônia que hoje tem o seu nome: Núcleo Colonial Dr. Carlos Alves – onde ele implantou numerosa colônia italiana.
Determinado, arrojado, ousado, ativo, o Dr. Carlos Alves planejou duas tarefas gigantescas para a época, sendo uma delas a construção da estrada de ferro para o distrito de Santa Bárbara (que hoje tem o seu nome). A segunda obra de vulto idealizada pelo Dr. Carlos Alves foi a fábrica de tecidos Mineiros, que começou a funcionar com 25 teares.
Muito ainda temos a relatar sobre a vida do grande homem que foi o Dr. Carlos Alves.
 Comentando sobre a belíssima história de vida do Dr. Carlos Alves, nos referimos a ele como o verdadeiro herói da história de São João Nepomuceno, relatamos uma parte do que foi a sua vida mostramos o seu lado de homem público, sua atuação bem sucedida na política, como vereador, agente executivo (o prefeito da época).  Ressaltamos ainda que dr. Carlos Alves também foi Deputado Provincial de Minas e, mais tarde, ocupou o cargo de senador no Congresso Constituinte do Estado.

Mas o heroísmo do Dr.Carlos Alves veio a se manifestar mesmo foi no período da calamidade que assolou nossa terra, e em que, além de prefeito e grande médico, teve de assumir também os papéis de juiz, advogado, trabalhador braçal, padioleiro, cozinheiro, enfermeiro, coveiro, mas sobretudo de amigo, de irmão e de apóstolo do bem.

Em 1890 uma epidemia de varíola se alastrou sobre nossa terra: uma doença, também conhecida como “bexiga”, que cobria o corpo da vítima de pústulas sangrantes, inflamadas, cujas consequentes repercussões no organismo levavam à morte. Ao lado da esposa o Dr.Carlos Alves levava consolo aos órfãos, sustentando o ânimo dos desesperados porque o pavor dominara a população e muitas pessoas deixavam seus doentes, seus vizinhos ou familiares, fugindo horrorizadas.
Diante da extensão do trabalho e da luta, Dr.Carlos Alves resolveu chamar seu irmão que vivia no Rio de Janeiro, o Dr.Augusto Glória Ferreira Alves, e o mesmo veio ajudá-lo. Mas o quadro era dantesco, difícil, desorientador, e em pouco tempo o Dr.Augusto Glória disse ao irmão que ia embora, e que ele também deveria ir, antes de contrair e doença e ter o mesmo fim que os outros. Clarividente, consciente, abnegado, Dr. Carlos Alves respondeu para o irmão que o lugar dele era aqui e que de modo algum abandonaria o posto, iria até o fim. Dr. Glória, emocionado, lhe disse, então: “Se você quer suicidar-se... fique”. E ele ficou. Enquanto isso morriam às dezenas as vítimas da bexiga, ou varíola, ou peste preta. E o Dr. Alves não permitia que as vítimas fossem sepultadas no cemitério municipal. Eram sepultadas fora dele, nas proximidades, em covas com o dobro da profundidade, para evitar novos surtos da doença, e tais sepulturas não deveriam, nem poderiam ser abertas de novo. As únicas pessoas que estavam ao lado do Dr. Alves nesse trabalho eram o coveiro Martelo e o delegado Neca Basílio, que não escondiam o pavor que os dominava, e só era contido pela energia, determinação e autoridade do Dr.Carlos Alves.



Em 1895, quando se pensava que a epidemia de varíola havia sido debelada e as pessoas estavam livres de doenças, grassou entre os são-joanenses outra epidemia, dessa vez de febre amarela. E então o inabalável Dr. Carlos Alves dirige o combate contra ela, com uma força descomunal, que só podia vir de sua determinação e fé no poder de Deus.

A cidade descia do Largo da Matriz para o vale e crescia em direção a Furtado de Campos, constituindo um problema para o Dr.Carlos Alves, que precisava de um novo cemitério. O local necessário ficava nas terras do Barão, que então exercia uma grande influência no município. Ele não queria correr o rico de pegar a febre amarela, e nem pretendia um cemitério em seus domínios. Então houve a primeira revolução na cidade, em prol do início imediato da construção do cemitério. Urgiam medidas drásticas!Dr. Carlos Alves tomou a frente dos trabalhadores da prefeitura, seguindo com carroças que transportavam material e ferramentas, descendo para a cidade baixa em direção às terras do Barão, acompanhado pelas orações de mulheres piedosas, que rogavam o êxito da missão. Os homens do Barão desapareceram e este viu a realidade de uma nova ordem pública implantada pelo Dr. Carlos Alves. Assim foi construído o nosso atual cemitério municipal.

Quando a febre amarela estava na fase mais aguda, Dr. Alves foi informado de que a esposa de um soldado da polícia estava nos últimos momentos de vida e ninguém queria aproximar-se dela. Dr. Alves se fez acompanhar do Delegado Neca Basílio e rapidamente chegaram à casa da doente, que não conseguiu esperar os recursos do abnegado médico.
Havia de se providenciar o sepultamento daquela senhora, cujo esposo, sendo soldado, estava de guarda e não podia abandonar o posto. Dr.Carlos Alves mandou procurar o coveiro Martelo, que estava desaparecido, para abrir a cova no cemitério.

Junto ao delegado tudo foi providenciado e apenas três homens transportaram o caixão, mas no cemitério não havia sido aberta a cova, e a solução foi o Dr. Alves pegar o enxadão e os dois homens pegarem as pás. Então, conseguiram sepultar a mulher.


Depois de tamanha luta empreendida pelo Dr.Carlos Alves no combate a duas graves epidemias, a falta de repouso e a multiplicação de tarefas estavam levando-o a uma astenia perigosa e os amigos sugeriram o reforço de outros médicos para que o auxiliassem. Em pouco tempo dois jovens médicos chegavam à cidade. Eram eles: Dr. Carlos Del Vechio e Dr. José Gomide, que, de imediato, começaram a trabalhar com Dr. Alves.
Imaginemos como era ser médico naqueles tempos distantes! Era uma tremenda prova para a sensibilidade daqueles que, como apóstolos da Medicina, colocavam o coração acima da cabeça. Vencer obstáculos e manter serenidade e clareza de ideias exigia paciência de santo e persistência acima de todos os limites.

Numa manhã em que se esgotaram todos os recursos, também a esperança abandonou os colegas do Dr. Carlos Alves, que sem se despedir, partiram. O Dr. José Gomide foi para as bandas de Santa Bárbara do Rio Novo, já atacado pela febre maligna e ali mesmo veio a falecer. O mesmo aconteceu com o Dr. Del Vechio que, tomando a linha férrea, partiu também, a pé, para Rochedo, onde, segundo informações, faleceu vitimado pela febre fatal. Mas o Dr. Carlos Alves permaneceu no seu posto, lutando até tombar, vencido pela terrível febre, vencedor diante de Deus e de si mesmo. Ao constatar o domínio da doença sobre seu organismo, medicou-se, melhorando o suficiente para seguir para Barbacena, dizendo a seu amigo, delegado Neca Basílio, que o levara até a estação, que ia continuar o tratamento para poder voltar ao campo de luta. Deixaria a família, que há algum tempo se mudara do Caxangá para a Rua do Totó (atual Capitão Braz). Na estação, ainda tinha intenção de voltar, porque aceitou o convite do amigo Neca Basílio para ser seu padrinho de casamento.

Em Barbacena, o estado de saúde do Dr. Alves se agravou. A febre voltou e, só, distante da família, ele faleceu. Era o dia 06 de fevereiro de 1896. São João Nepomuceno perdia, assim, o médico, o amigo, o irmão, o enfermeiro, o apóstolo, que partiu para ser julgado por Deus, que certamente lhe abriu os braços misericordiosos, envolvendo-o no Seu Santo amor. Contava o Dr. Carlos Alves apenas 42 anos.

São palavras do ilustre colega do Dr.Carlos Alves no Senado Estadual, o historiador mineiro Xavier da Veiga: “... ele deixou para epílogo da sua vida tão cheia de atos meritórios e brilhantes, a página sublime que registra o consciente sacrifício de sua existência, perseverando na luta pela salvação de seus concidadãos, flagelados por epidemia devastadora, luta em que ele se multiplicava, dia e noite, sendo a um tempo médico, enfermeiro, diretor de serviço funerário e consolador de órfãos”.

(Este texto foi baseado em trechos de trabalhos escritos por pesquisadores como Dr.Paulo Roberto de Gouvêa Medina, depoimentos de José Basílio e Oraida Muniz, além de pesquisas de José Carlos Henriques Barroso e Adilson Cunha Onore)


 

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